jueves, 19 de septiembre de 2013

"Movimiento Autêntico: mover o corpo, mover a alma". Betina Waissman.


Uma pessoa fecha os olhos dirigindo a atenção ao seu interior, espera, escuta e se move, seguindo seus impulsos, na presença de uma testemunha que está em quietude.

 

Assim se poderia definir de modo sintético, esta forma basicamente simples de movimento não dirigido que permite acessar conteúdos de diferentes níveis de complexidade. Também poderíamos falar de “associação livre” (Freud) ou “imaginação ativa” (Jung) a partir do corpo, deixando-se fluir no movimento e aumentando a presença desperta da consciência. Uma forma de trabalho que convida o inconsciente a manifestar-se e que investiga a relação entre entrega e vontade. A particularidade aqui é que nos deixamos guiar pelo corpo e seguimos seus movimentos. O corpo que se move e que pode ser movido. Dando corporalidade a tudo que vai ocorrendo na medida em que nossa atenção se intensifica na presença de quem olha, a testemunha. Também poderíamos dizer que Movimento Autêntico é um trabalho de relação com o vazio, de entrega ao desconhecido.


Mas como é voltar a atenção ao nosso interior?
Como é esperar e escutar nossos impulsos? E seguí-los?
De onde surge um impulso, um movimento? Aonde nos leva?
Com o quê nos encontramos? O quê nos ocorre? O quê se revela?

Por impulsos entendemos o que nasce de nossas sensações, pensamentos, imagens, associações, emoções/sentimentos, energia e movimentos físicos que podem aparecer ao voltarmos nossa atenção para nós mesmos. Por movimento entendemos tudo o que vibra, tudo o que pulsa, o que está ocorrendo dentro e fora de nós, incluindo a voz, o som, a quietude, as relações, o movimento interior, exterior, energético.

“ ... estamos vivos porque nos movemos e nos movemos porque estamos vivos. No sentido mais profundo, movimento é o fluxo de energia que pertence a tudo que é vivo.” Mary S. Whitehouse (1)

Uma ou mais pessoas se movem com os olhos fechados, sensibilizando-se, abrindo-se, escutando e seguindo seus impulsos e tudo o que está acontecendo. Deixando que o corpo se mova segundo esta informação que vai se desvelando. Aqui aparece um aspecto essencial deste trabalho: a relação entre entrega e vontade. Ao mover-nos, podemos dirigir o próprio movimento, levantar um braço intencionalmente, mover a cabeça com as mãos para liberar a sensação de pressão ou o excesso de pensamentos, golpear o ar para expressar raiva, gritar, etc. Mas também podemos experimentar momentos nos quais o movimento nos ocorre, sem a intervenção de nosso comando ou intenção. Nos damos conta de que nosso braço está se levantando, ou que avançamos no espaço sem termos nos proposto, ou que um som emerge de dentro ... Estamos “sendo movidos” mantendo uma presença consciente, diferente do controle, satisfatória e plena, fruto da união entre entrega e vontade. Experimentamos a confiança de entregarmo-nos a um movimento sem necessariamente saber porquê, para quê, nem como será no momento seguinte. Simplesmente deixando-nos levar e habitando-o em seu desdobramento.

A experiência pode ter sentido no mesmo momento em que está ocorrendo, pode vir acompanhada de palavras que surgem na mente, de compreensões/”insights” (visões interiores), revelações. Outras vezes o que emerge pode surgir de etapas pré-verbais ou de conteúdos difíceis de expressar em palavras, situação tão freqüente quando estamos no terreno do transpessoal e do mistério. Há movimentos que podem não ter nenhuma lógica aparente e tampouco ter uma associação clara para a pessoa que os faz (“movimentos idiossincráticos”). Às vezes, com o tempo, aparece algum sentido para a pessoa que os fez ou permanece simplesmente como uma expressão singular, muito pessoal de alguém que necessita mover-se dessa maneira.

Também há movimentos que, vividos aparentemente como uma necessidade exclusivamente corporal, como uma forma de expressar a energia através do corpo, posteriormente cobram sentido. Na vida cotidiana se completam, com o tempo e com a observação de si mesmo. É o caso de uma mulher que participava de um grupo que se reunia regularmente comigo a cada quinze dias. Em uma seção permaneceu por muito tempo repetindo uma seqüência de movimentos: em pé, com o corpo muito alerta, as pernas separadas, posiciona seus braços como se fossem uma grande flecha, indicando o espaço diante de seu corpo. Um braço completamente estirado, mão incluída, aponta firme. Com o outro braço faz o mesmo, mas mantendo-o mais próximo de seu tronco, com o cotovelo dobrado, um pouco por baixo do primeiro braço, apoiando e reforçando a posição de apontar como uma flecha. Ela se coloca firmemente nessa posição como quem toma uma decisão. Depois seu corpo segue a direção traçada com passos amplos, quase saltando até parar. Ao deter-se ri, como se houvesse chegado aonde queria. Ri com o prazer de quem desfruta e reconhece algo. Depois faz um giro, muda de direção, retoma a mesma posição corporal e continua com passos amplos a direção indicada por ela mesma. Assim permanece talvez por uns vinte minutos, explorando todas as direções, estalando numa gargalhada cada vez que alcança o ponto de “chegada”. Ao final compartilha que não sabia bem porquê o fazia mas que se entregava a esse movimento que surgia e que lhe dava satisfação.

No encontro seguinte, ela já estava na sala quando cheguei. Fiquei surpresa, já que costumava chegar atrasada ao grupo. Quando todos chegaram, nos contou com alegria que nos últimos quinze dias havia conseguido chegar pontualmente a todos os seus compromissos. Também havia conseguido realizar tudo o que havia se proposto a cada dia! Habitualmente se propunha longas listas de tarefas que não conseguia realizar totalmente. Foi uma experiência surpreendente e útil para ela mesma. Tempos depois, conseguiu realizar mudanças substanciais e importantes em sua vida, que durante anos vinha desejando concretizar e que definiam novas direções para sua vida.

Há uma satisfação intensa em “habitar” a experiência através do corpo. Uma alegria e uma sensação de liberdade por reconhecer no corpo o que se sente. Algo se preenche e se completa, como uma gestalt que se fecha. Isto resulta profundamente curativo.

“Há um termo técnico para sentir o próprio corpo movendo-se – se chama o sentido cenestésico – e é tão valioso como os cinco que nos informam sobre o mundo físico ao nosso redor. O sentido cenestésico é a sensação que acompanha e nos informa sobre o movimento corporal.”

“O sentido cenestésico pode ser despertado e desenvolvido ao se usar qualquer tipo de movimento, mas creio que só se torna consciente quando a conexão interna, subjetiva, é encontrada, a sensação de como é para o indivíduo, seja balançar-se, alongar, dobrar, girar, torcer-se ou o que seja. Podemos aprender movimentos de grande variedade e diversidade. Mas isto não necessariamente garante senti-los. É o dar-se conta específico e concreto do próprio ato de mover-se que resulta tão satisfatório.”  Mary Whitehouse (2)

Nas palavras das três pioneiras em Movimento Autêntico:

Mary Whitehouse:

“O núcleo da experiência do movimento é a sensação de mover-se e ser movido. Há muitas implicações em falar desta maneira. Idealmente, ambos estão presentes no mesmo instante e pode ser literalmente um instante. É um momento de pleno dar-se conta, o encontro do que estou fazendo e do que está me acontecendo. Não pode ser antecipado, explicado, buscado especificamente nem repetido exatamente.” (3)

Janet Adler:

“Para voltar ao centro, desde a fonte da energia pessoal ou transpessoal, ou desde uma experiência de regressão ou egressão, subjacente às diferenças, o fundamento básico permanece sendo o mesmo em Movimento Autêntico. Com uma capacidade crescente de concentração, de escuta do impulso interior, o que se move aprende a reconhecer o canal no qual a energia criativa ou autêntica flui. Assim, cada movimento, não importa quão pequeno seja, passa a ser percebido, situado e ordenado de modo impecável. Honrar este conhecimento contém o poder transformador deste trabalho. Tanto no trabalho pessoal como transpessoal o que se move aprende a permitir e aceitar a prematura experiência de caos, de formas irracionais em seu corpo ou imaginação, do não saber.” (4)

Joan Chodorow:

Fala da “diferença entre movimento que é dirigido pelo ego – eu estou me movendo – e movimento que vem do inconsciente – estou sendo movido.” (5)

Ao trabalhar com os olhos fechados, nosso olhar se dirige ao nosso interior e todos os nossos sentidos se intensificam.

Conhecemos isto no nosso cotidiano, por exemplo quando fechamos os olhos para escutar e saborear melhor a música. Nossa percepção de emoções, imagens e pensamentos se intensifica como em outras práticas de instrospecção, auto-observação ou meditação.

Voltando intencional e conscientemente o olhar para nós mesmos, se gera uma qualidade de atenção e concentração não habitual, não mecânica. Isto abre as portas a muitas percepções, intuições, compreensões e experiências, à manifestação do inconsciente. Há algo misterioso nos olhos, no encontro com o olhar. A cultura popular se refere aos olhos como “as janelas da alma”. Em nenhuma outra parte do corpo podemos ver exteriormente o órgão interno e seu funcionamento. Conhecemos de sobra a importância do encontro com os olhos dos pais em nosso crescimento e de outras pessoas queridas ou importantes ao longo de nossas vidas.

“Se um homem deseja estar seguro do caminho que pisa, deve fechar os olhos e caminhar na escuridão.”  São João da Cruz (6)

Este trabalho se desenvolve e fundamenta na relação que se estabelece entre a pessoa que se move com os olhos fechados e a testemunha, com os olhos abertos.

“Uma das primeiras experiências da vida é a de ser visto. Os pais são testemunhas do filho. O filho, crescendo através da infância e da vida adulta, se move através de inumeráveis experiências de ser visto e de ver-se a si mesmo ... ser visto precede inevitavelmente o ver-se a si mesmo ...”  Janet Adler (7)

Também em psicoterapia, um aspecto fundamental do processo é a relação que se desenvolve entre paciente e terapeuta.

“Na cultura Ocidental o desejo por uma testemunha é inerente a ser pessoa. Queremos, queremos profundamente, ser vistos como somos por outro ... Finalmente, queremos ser testemunhas, amar, a outro.”  Janet Adler (8)

Em Movimento Autêntico utiizamos a palavra Testemunha para diferenciar do Juiz que levamos dentro. A testemunha está em quietude e silêncio, com os olhos abertos, receptiva: uma parte de sua atenção concentrada na pessoa que se move e a outra no que está sucedendo a si mesma, no que está se movendo em si. À testemunha não cabe julgar, criticar, analisar, interpretar ou descartar material, senão estar presente a serviço da pessoa que está se movendo. A testemunha está observando seus próprios impulsos, associações, projeções; quando se percebe presente ou ausente, distraída, desconectada ou concentrada. Aprendendo disto enquanto sustenta a atenção em e para o que está se movendo. Aprendendo sobre o mistério que é o outro, a humanidade, sua própria humanidade, a compaixão.

A testemunha sustenta também o campo energético, o espaço para o trabalho. Quando se trabalha em grupo, a função da testemunha é sustentada por todos os seus integrantes e pela pessoa que coordena o grupo, testemunha do grupo, assim como acontece nos grupos de terapia.

“Do mesmo modo que ser visto por outro originalmente me possibilita ver-me como sou, em uma volta a mais da espiral, ver o outro como é – amá-lo – me possibilita ver-me como sou.”
“O desejo mais profundo se modifica de ser visto como sou por outro, para ver o outro como é, os outros como são, o universo de uma nova maneira. E o ciclo continua recriando-se, expandindo a consciência em cada volta. Cada vez mais, se trata de ver e amar.”  Janet Adler (9)

“Deve-se ver realmente no plano físico, e por cima e através deste ver (do que se vê) deve haver outro tipo de visão ... Não que algo diferente seja visto mas que se veja de modo diferente.”  Suzuki (10)

À medida em que a relação entre o que se move e a testemunha cresce, também se fortalece a Testemunha Interior: nossa qualidade de presença e consciência diferenciada do Juiz, capaz de identificar o emaranhado de projeções e conteúdos que emergem. Em todo trabalho pessoal, seja terapêutico, de crescimento, auto-observação, meditativo ou espiritual, também se busca desenvolver esta qualidade que pode tomar diferentes nomes: presença, consciência, observador interno, mestre interior, sabedoria, visão, claridade, essência, etc e que inclui também a intuição.

“Todo ser mental desenvolvido ... em certos momentos e para certos propósitos ... separa as duas partes da mente, a parte ativa, que é uma fábrica de pensamentos e a parte quieta e sábia que é ao mesmo tempo Testemunha e Vontade.”  Satprem (11)

Esta consciência desperta e receptiva, que não julga, critica, analisa ou interpreta, permite acompanhar e transitar de maneira plena o material inconsciente que emerge sem cair na inconsciência. Embora existam momentos nos quais podemos nos fundir com o material emergente, ser “inundados” pela energia psíquica, ser extravasados pela emoção. Aqui aparecem os riscos na utilização desta forma tão potente de trabalho. São aspectos a serem trabalhados para aumentar nossa capacidade de presença, sustentar uma maior quantidade de energia e uma maior qualidade de percepção em nossos corpos. Aumentar o acesso ao inconsciente de modo consciente, receber suas mensagens/conteúdos e integrá-los é diminuir nossa inconsciência.

A pessoa que se move, a testemunha e a testemunha interior são os três pilares nos quais se apóia o trabalho de Movimento Autêntico. O que interessa é encarnar, dar corpo e carne ao diálogo com o inconsciente. Desta maneira nossa consciência se expande através de uma experiência concreta, corporal, com a reparação, o auto-conhecimento e a transformação que isto propicia.

“Quando o corpo encontra a forma para expressar o que a princípio é material sem forma, a consciência pessoal evolui.”  Janet Adler (12)

Depois do movimento, pode-se utilizar recursos artísticos como desenhar, pintar, modelar, para facilitar a transição entre a linguagem corporal não verbal e a palavra. Com estes materiais artísticos podemos plasmar a experiência presente no corpo em algo que está fora do mesmo, estando ainda no âmbito da linguagem simbólica.

Embora se trate de uma prática e trabalho corporal, uma parte importante de sua aprendizagem e desenvolvimento é a possibilidade de completar e integrar a experiência por meio da palavra. Assim como costuma ocorrer com os sonhos, se não os escrevemos ou contamos a alguém, inclusive a nós mesmos, mesmo que seja só um pedacinho, facilmente os esquecemos. Retornam a sua fonte, a “noite”, a “escuridão ou sombra”; retornam ao inconsciente. Quando isto se dá, podemos manter alguma sensação (descarga, liberação ou angústia) mas perdemos a oportunidade de integrar o material emergente à consciência.

“... inclusive as experiências interiores mais potentes devem ser cuidadosamente fixadas na consciência, senão tenderão a desaparecer.”
“... a questão crucial para a consciência deve incluir o trazer material inconsciente à luz, integrando-o à personalidade total.”  Joan Chodorow (13)

A palavra escrita e falada, utilizando a metáfora poética é de grande ajuda para plasmar a experiência sem nos afastar de sua qualidade direta por meio da racionalização. Então também a palavra surge de modo menos racional e discursivo, mantendo-se mais próxima da experiência e do corpo.

Pratica-se um modo de trabalhar com a palavra que nos ajuda a identificar as projeções, diminuir nossas tendências automáticas de interpretar, analisar, criticar, julgar e dar por certo. Um modo de falar que dê espaço ao que escuta, que respeite sua experiência e também seus silêncios. Uma linguagem que mantenha a presença viva do vazio, permitindo a surpresa, a criação, a poesia; que ofereça estrutura ao simbólico para que o inconsciente siga se revelando e encarnando. Palavras que nem sempre são lineares nem necessariamente lógicas ou racionais mas que nos ajudam a manter-nos presentes, a palavra viva, a palavra carne. Palavras que possam incluir o inominável, o que não cabe em palavras, nomear o que a palavra não abrange.

Analogamente se reproduz o caminho do desenvolvimento infantil: da experiência eminentemente sensório-motora e perceptiva à linguagem. Da experiência de ser visto (a pessoa que se move), a ver o outro (aprendizagem e função da testemunha), ver-nos a nós mesmos (testemunha interior) e ao coletivo com o qual estamos nos relacionando.

Em Movimento Autêntico o espaço físico é fundamental. É necessário criar um espaço seguro e protegido.

“... um espaço seguro e íntimo onde a confiança e a claridade possam desenvolver-se.”  Janet Adler (14)

O espaço é o campo onde o trabalho ocorre. Que esteja o mais vazio possível (sem objetos) ajuda a concretar explicitamente, fisicamente, de modo real e palpável, o vazio. O espaço aberto, vazio e receptivo que vemos e criamos fora, ajuda a gerar o espaço interior que permite que o inconsciente se revele e se expresse.

Para isso é necessário abrir-se ao vazio. Criar o vazio, receber o vazio, entregar-se ao vazio. Pode-se dizer que o trabalho de Movimento Autêntico é também uma forma de trabalhar com o vazio, como um ato ou momento de criação. Reconhecer o vazio é reconhecer o mistério, algo mais além de nós mesmos, que nos transcende.

A confiança é essencial e se cria durante o processo: por meio da relação com a pessoa que o conduz, com os outros participantes, no caso de um grupo, consigo mesmo e sua própria experiência. A confiança vai se desenvolvendo na dinâmica entre espaço e limite, exterior e interior; espaço para o diálogo entre entrega e vontade.

“O espaço potencial entre bebê e mamãe, criança e família, entre indivíduo e sociedade ou o mundo, depende da experiência, que leva à confiança. Pode ser vista como sagrada para o indivíduo já que é aqui onde o indivíduo experimenta viver criativamente.”  Winnicott (15)

Movimento Autêntico proporciona um espaço explícito e seguro para explorar “tudo o que impede nosso crescimento e plenitude, mas também tudo o que pode servir para curar feridas, trazer equilíbrio, transformar relações internas e dirigir-nos em nossas singulares viagens de vida.”  Lewis (16)

À medida em que o trabalho se aprofunda e especialmente quando se trabalha em grupo, esta expansão pode nos levar mais além de nossos limites individuais e do ego, mais além de nossas histórias pessoais. Podemos ter acesso ao inconsciente coletivo e a outros níveis de experiência e energia transpessoal.

Ritualizar nos ajuda a criar este espaço que convida à sincronicidade. Esta revela os movimentos, conteúdos e ordens mais sutis do mistério. O ritual é também uma entrada à linguagem simbólica que, como sabemos, é a linguagem do inconsciente.

Para dialogar com o inconsciente precisamos nos familiarizar com o simbólico e sua expressão no corpo e no movimento. Tudo passa a ser importante, cada pequeno detalhe pode conter significado.

Em uma entrevista, Joan Chodorow fala de um tipo de percepção ou dar-se conta que ocorre quando estamos envolvidos num processo simbólico, seja falando ou movendo-nos:

“Para mim, tudo o que emerge do inconsciente costuma ter quatro aspectos: um aspecto é o que está ocorrendo aqui entre nós; outro aspecto é o que está ocorrendo na vida da pessoa nesse momento; o terceiro aspecto são as memórias mais antigas da infância semelhante a esse mesmo tipo de experiência; o quarto aspecto inclui imagens universais ou místicas.”  Joan Chodorow (17)

Ao ritualizar canalizamos nossa atenção de modo intencional, gerando uma maior concentração de energia no campo. Isto nos leva a uma qualidade de presença que altera nosso estado de consciência, uma intensificação de nossos sentidos que pode nos levar a viver de um modo muito potente, tanto o material da nossa história pessoal (passado ou presente) como o transpessoal. Daí que tantas vezes falamos da experiência como uma “viagem”, que transitamos através de diferentes níveis ou estados de consciência, de espaços e tempos, para diante/trás, acima/abaixo, o círculo/a espiral, o puro presente, atemporal. Uma “viagem” ao desconhecido, ao misterioso, ao sagrado.

“A psique humana demanda inevitavelmente experimentar a relação direta com o espírito, conhecer o sagrado.”  Janet Adler (18)

Movimento Autêntico, ou alguns de seus elementos, vêm sendo aplicados nos âmbitos da saúde e da psicoterapia, da meditação e prática espiritual, de processos criativos e artísticos e em trabalhos comunitários.

Gostaria de dar uma suscinta perspectiva histórica e de mencionar algumas contribuições das mulheres que assentaram os pilares deste trabalho:

Entre a década de 50 e 60 se origina um movimento no mundo da dança, mais visível nos Estados Unidos, embora também na Europa e na América do Sul, que vai deslocando o foco de interesse da experiência técnica e profissional para a humana. Cada vez mais pessoas se interessam pelo movimento e a dança sem um propósito profissional ou exclusivamente artístico. Por outro lado, muitos artistas também se interessam mais pelos aspectos humanos, expressivos e misteriosos da dança e não somente pela técnica formal. Isto aparece nos trabalhos de Isadora Duncan, Mary Wigman, Martha Graham, Trudi Schoop, Marian Chace, Susana Milderman, Maria Adela Palcos e outros. Nos Estados Unidos, algumas bailarinas começam a colaborar em clínicas psiquiátricas que estão investigando linguagens para o trabalho com internos, como alternativas à medicação, às descargas elétricas, às cirurgias. Assim nasce o que tomará a forma de Dança/Movimento Terapia, hoje em dia uma prática reconhecida e integrada no sistema de saúde norte americano. Com trajetórias parecidas surgem outrs formas de trabalho com o movimento e a expressão para o desenvolvimento pessoal como, por exemplo, o Sistema Río Abierto na Argentina.

Mary Starks Whitehouse, bailarina americana e pioneira na aplicação da dança/movimento para a terapia e o crescimento pessoal, é quem inicia a investigação nos anos 60, sobre o que primeiro chamará “movimento em profundidade”, por analogia a seu intenso processo analítico pessoal na linha de Carl Jung. Mais adiante passará a utilizar o nome de Movimento Autêntico. Sua investigação se centra principalmente na pessoa que se move. Mary fala de como seu interesse se transfere do âmbito técnico/artístico para o  “processo e humanidade” em um pequeno texto: “Reflexões sobre uma Metamorfose” (1969-70):

“Aí estava para mim a chave: o sentido e a condição de estar vivo ... Gradualmente, me dei conta de que movimento é uma das grandes leis da vida. É o meio primário de nosso viver, o fluxo de energia ocorrendo em nós todo o tempo, como um rio, adormecidos ou despertos, vinte e quatro horas por dia. Nosso movimento é nosso comportamento; há uma conexão direta entre como somos e como nos movemos.”  (19)

Sua visão sobre o corpo, o movimento e a personalidade, nascida de sua prática, é de uma claridade contundente:

“O corpo não mente. Somos como nossos movimentos, pois o movimento somos nós vivendo: vital e experimental ou tenso e restringido, espontâneo e fluido ou controlado e inibido.”  (20)
“O corpo é o aspecto físico da personalidade e o movimento é a personalidade feita visível. As distorções, tensões e restrições são as distorções, tensões e restrições da personalidade. São, em qualquer momento dado, a condição da psique. E a descoberta de sua existência de fato, sua existência física, é o início do processo do que se pode chamar reconhecimento psicossomático, pois somos entidades psicossomáticas.”  (21)


“Dois aspectos sobre o movimento físico são impactantes. Um é que o movimento é não verbal e no entanto comunica – ou seja, diz algo ... O que me leva ao segundo aspecto: o corpo não mente, quase diria, não pode mentir. O ser humano, tal como realmente existe em qualquer momento, não pode ser ocultado, por palavras, por roupas, menos ainda por desejos. Não importa o que faça ou diga, tem seu próprio modo de fazer ou dizer e é este modo que revela como é. A condição física é, de certa forma, também a psicológica. Não sabemos de que modo a psique é o corpo e o corpo é a psique mas sabemos sim que um não existe sem o outro. E eu diria que assim como o corpo muda no curso do trabalho com a psique, também a psique muda no curso do trabalho com o corpo. Seria bom recordar que ambos não são entidades separadas mas misteriosamente uma totalidade.”  (22)


“Quanto menos se experimenta o corpo, mais se converte em uma aparência; quanto menos realidade tem, mais necessita ser “desvestido” ou vestido; quanto menos é o corpo próprio e conhecido, mais se afasta do que tenha que ver com o ser. Trabalhar com movimento é uma iniciação ao mundo do corpo como é na realidade, o que pode fazer facilmente, com dificuldade ou de nenhuma maneira. Mas é também, ou pode ser, um descobrimento sério do que somos – pois somos como nosso movimento.”  (23)

 Mary define assim “um movimento autêntico”:

“Quando o movimento é simples e inevitável, para não ser modificado, por mais limitado ou parcial que seja, se converte no que chamo “autêntico” – que poderia ser reconhecido como genuíno, pertencendo a essa pessoa. Autêntico era a única palavra que me ocorreu que significava verdade – verdade de um tipo não aprendida, mas aí para ser vista por instantes.”  (24)


“Quando, em certas pessoas, a imagem está verdadeiramente conectada, o movimento é autêntico. Não se infla o movimento somente porque sim. Há uma habilidade de sustentar a tensão interna até que a imagem seguinte nos mova. Não “passeiam” dançando simplesmente.”  (25)

A experiência com o Movimento Autêntico pode ser vista como:

“ ... momentos de revelação num processo de desenvolvimento do dar-se conta. São o discurso da personalidade total apresentando-se para ser ouvida – o processo interno em forma física, tendo sentido que pode ser apreendido e valor que pode ser recebido pela pessoa que se move. São especialmente irresistíveis porque o corpo é uma realidade imediata. Não se pode escapar da experiência física direta quando é direta e quando é física ... Aí está alguém, exatamente onde está o movimento, com a mesma falta de liberdade, com o mesmo conflito, com os mesmos temores. E a assimilação desta descoberta fortalece e libera a consciência para o crescimento, que, acredito, é o sentido básico da personalidade.”  (26)

A dinâmica entre as polaridades é inerente a este trabalho. A relação entre os opostos está presente nos conteúdos e na natureza do material que emerge, assim como em sua estrutura e desenvolvimento: alguém que se move e outro que é testemunha; consciência e inconsciente, entrega e vontade, mover e ser movido, movimento e quietude, silêncio e som/palavra, interior e exterior, indivíduo e coletivo, pessoal e transpessoal.

Como em outros trabalhos de crescimento pessoal, trata-se de ampliar e integrar esta dinâmica para viver nossa totalidade.

“A vida nunca é isso ou aquilo, mas sempre o paradoxo entre ambos ... Aplicado ao físico, é surpreendente que nenhuma ação possa ser realizada sem a oposição de dois grupos musculares – um que se contrai e outro que se estende. Esta já é a presença da polaridade inerente no padrão do movimento.”  (27)

Janet Adler é a segunda mulher que contribui para que Movimento Autêntico tenha a forma que tem hoje. Janet, uma geração mais jovem que Mary, estuda com ela depois de formar-se em Dança Movimento Terapia. A partir desta experiência, funda o Instituto Mary Whitehouse, enriquecendo e aprofundando o trabalho com sua contribuição pessoal e investigando a importância e função da testemunha. Em seu trabalho, Mary era sempre a única testemunha, tanto em sessões individuais como grupais. Janet investiga a relação com a Testemunha como uma função intrínseca do que chamará a Forma de Movimento Autêntico. Colocará sua atenção também no fenômeno coletivo ou “corpo coletivo”: o aspecto transpessoal e a relação com o espaço vazio.

Janet fala de cinco etapas de trabalho em Movimento Autêntico que podem ser compreendidas no marco do trabalho psicológico. Ela deixa claro que fala de processo e não de cura e que muitas das pessoas que vêm trabalhar com ela são alunos de dança/movimento terapia, de psicologia e de artes. Podemos resumir assim estas etapas:

1. Uma primeira etapa onde a pessoa busca reconhecer e permitir seu próprio movimento autêntico que, como descreveu Mary Whitehouse (1970), é “movimento que é natural para uma pessoa particular”, não
aprendido ou intelectualizado, e que não busca um efeito sobre outros. “Um movimento autêntico é a expressão imediata de como a pessoa se sente em qualquer momento específico.” À medida que isto começa a ocorrer, cada vez de modo mais fácil, com a capacidade de reconhecer quando se está movendo desde aí ou não, a pessoa está se “permitindo ter acesso ao seu próprio inconsciente e, à medida em que seu inconsciente fala através de seu movimento, pode tornar-se consciente do que está fazendo ... Em psicoterapia o início é semelhante. O paciente procura separar e desenredar o que são sentimentos e sensações autênticas das “adotadas”. Está também buscando a experiência de falar livremente a partir do coração, sem que sua mente esteja julgando e criticando tudo o que diz.”

2. A segunda etapa é marcada pela expressão aberta do movimento autêntico, marcado pela liberdade e o prazer de mover-se. Com o tempo e a confiança, há cada vez mais entrega e descobrimentos. Em psicoterapia é o momento em que o paciente consegue falar livremente de seus verdadeiros sentimentos. Aqui também a base desta liberdade se desenvolve a partir da confiança em si mesmo e no terapeuta.

3. A terceira etapa é a percepção e o reconhecimento de um repertório próprio, padrões repetitivos de movimento. Como na psicoterapia, aprendemos a reconhecer nossos comportamentos repetitivos, padrões defensivos e assuntos recorrentes.

4. A quarta etapa é quando se enfocam, investigam e aprofundam temas específicos; quando se percorre e atravessa o que necessita ser experimentado. “Quanto mais profunda e autêntica é a quarta etapa, mais poderosa e clara é a resolução.”

5. A quinta etapa é a experiência de resolução, “a saída, emergindo com energia liberada para o crescimento contínuo”.  (28)

Acompanhando seu próprio processo pessoal, Janet começa a investigar no âmbito da experiência mística e espiritual. Cada vez mais se interessa pelo que chama experiência direta e por fenômenos energéticos. Realiza um doutorado em estudos místicos e investiga diferentes processos de despertar energético e da consciência. Chama seu trabalho Disciplina de Movimento Autêntico, separando-o mais da psicoterapia e aproximando-o mais da meditação e de outras tradições e práticas de crescimento espiritual. Trabalha também no terreno do trauma. Em seu artigo Corpo e Alma (1991), traça paralelos e assinala temas habituais e comuns a Movimento Autêntico e práticas místicas/espirituais de diversas tradições.

“Tudo parece estar ocorrendo acima, mais além, mas o quê está ocorrendo aqui? ... Necessitamos uma verdade que envolva também o corpo e a terra ... Quanto mais descemos, maior é a consciência que necessitamos, mais forte a luz.”  Satprem (29)

Joan Chodorow, também bailarina e aluna de Mary, é quem desenvolve a vertente mais clínica e psicoterapêutica do trabalho. Joan trabalha especialmente na relação individual terapeuta-paciente e em grupos de formação para terapeutas de dança/movimento. Joan completa um doutorado e é analista membro do Instituto Carl G. Jung de São Francisco. Apresenta uma visão da psique que apóia a compreensão dos movimentos expressivos. Fundamenta-se principalmente nas teorias de Carl G. Jung e nas contribuições mais atuais de Louis H. Stewart, quem propõe uma síntese com contribuições próprias sobre a estrutura e a dinâmica da psique, o desenvolvimento psicológico/simbólico, as funções dos afetos/emoções primordiais e o desenvolvimento infantil (Afeto e arquétipo: uma contribuição para a compreensão da teoria da estrutura da psique – 1985). Stewart nomeia alguns temas essenciais em processos de expressão e transformação que são básicos no trabalho com Movimento Autêntico, tais como: ritmo, ritual, razão e relação. Tanto Jung como Stewart destacam a importância e a função do jogo e da imaginação para o ser humano. Em seu livro “Dança Terapia e Psicologia em Profundidade: a imaginação em movimento” (1991), Joan apresenta sua experiência e visão, descrevendo diferentes tipos e temas de movimento vinculados a etapas do desenvolvimento infantil, conteúdos do inconsciente (pessoal, cultural, primordial) e o eixo ego-self.

“ ... a interconexão misteriosa entre corpo e psique ... Uma emoção, por definição, é simultaneamente somática e psíquica. O aspecto somático é feito de inervações corporais e ação física expressiva. O aspecto psíquico é feito de imagens e idéias. Em psicopatologia, ambos aspectos tendem a separar-se.Por contraste, uma emoção vivida como natural envolve uma relação dialética – a união do corpo e da psique ... Os padrões expressivos são ao mesmo tempo pessoais e universais. Sejam as emoções nomeadas ou não, motivam e configuram nosso modo de nos mover.”

“Se colocamos nossa atenção conscientemente no movimento corporal mais simples, experimentamos a interrelação e a interdependência dos opostos.”


“ ... desenvolver a capacidade de sustentar a tensão dos opostos – abrir-se plenamente ao inconsciente enquanto se mantém uma firme orientação consciente.”  (30)

Ela destaca:

“ ... a função curativa da imaginação e da relação dialética e contínua entre curiosidade e imaginação ... Toda forma de imaginação ativa inicia este diálogo essencial entre curiosidade e imaginação. Tal diálogo é a trama da consciência e do inconsciente; é a fonte última da criatividade. O processo criativo intrínseco à infância e seu desenvolvimento é o mesmo processo que promove a individuação de um adulto em psicoterapia.”


“O jogo simbólico ativa a função produtora de imagens da psique (a imaginação) que nos põe em contato conosco mesmos.”  (31)

Fala do diálogo com o mistério/o sagrado e as polaridades:

“Imaginação ativa foi chamada de ‘um diálogo com os deuses’ (Dallett e Lucas, 1977). A mesma definição se pode aplicar à experiência de dança/movimento. Desde o começo da história humana, a dança foi uma linguagem sagrada, um modo de perceber e dar-se conta de nossa conexão com o cosmos.”


“Devemos aprender a nos relacionar com posições opostas, sejam no interior do indivíduo, entre duas ou mais pessoas, ou entre nações. Para desenvolver mais amplamente o potencial do diálogo sagrado que serve para unir os opostos ...”  (32)

Sobre o compromisso de levar o crescimento pessoal à vida:

“Insight deve ser convertido em uma obrigação ética – levá-lo à vida.”


“ ... – o que era invisível pode fazer-se visível. ... buscamos nossa completude através da experiência psíquica e somática direta. Assim, a sabedoria do corpo cria a possibilidade de uma conexão mais rica e profunda com a vida diária. Como escreve Jung: ... não se pode ensinar sabedoria com palavras. Só é possível por contato pessoal e por experiência imediata.”  (33)

Janet Adler reflete o mesmo compromisso no poema-oração que fecha seu livro:

“Que a qualidade de consciência     emergindo coletivamente     no mundo     supere a quantidade de inconsciência     que sofre nosso planeta.Que todo o sofrimento se transforme em compaixão.Que estejamos preparados, que sejamos capazes.”  (34)



Para completar, contarei como cheguei ao trabalho de Movimento Autêntico.

Meu caminho pessoal e profissional ocorreu principalmente através da expressão e da criação. Dediquei-me profissionalmente ao teatro como atriz durante mais de vinte anos e paralelamente a trabalhos de crescimento pessoal através do movimento. Simultaneamente realizei meu processo terapêutico, começando pela Psicoterapia Analítica, depois passando ao caminho corporal: Bioenergética e Terapia Reichiana. Formei-me no Sistema Río Abierto (Coringa – Brasil; Río Abierto – Argentina), em Terapia Reichiana (CIO – Brasil e ES.TE.R – Espanha), e no Programa SAT dirigido por Cláudio Naranjo. Desde 1992 trabalho como colaboradora neste Programa, no Brasil, Espanha, México, Argentina, Itália e outros países. Desde 1995 sou professora no Estudio Corazza para el Actor (Madri – Espanha) e de 1998 a 2007 participei da equipe de Espacio Movimiento – Rio Abierto España.

Claudio sempre teve um interesse especial pelo expressivo e uma fé profunda no espontâneo, na sabedoria inerente ao ser humano. Conheceu Mary Whitehouse em Esalen, e também o Subud, uma prática de entrega ao movimento espontâneo de olhos fechados, com muitas semelhanças ao Movimento Autêntico. Em um Congresso de Psicologia Transpessoal na Itália (1995) recupera a pista do trabalho de Mary Whitehouse em uma apresentação feita por Marcia Plevin, dança-terapeuta americana radicada em Roma. Convida-a para colaborar em um módulo do Programa SAT em Burgos, Espanha (1996) e para levar em paralelo um grupo especial para pessoas que já haviam completado todos os módulos do SAT. Neste grupo, composto em sua maioria por terapeutas, ela introduz movimento Autêntico e a pedido de Claudio, a traduzo e ajudo. Graças à intuição, generosidade e estímulo de Claudio, começo a aprofundar nesta nova direção de trabalho psico-corporal.

Sigo formando-me com Marcia por cinco anos mais, com Neala Haze, Zoe Avstreih, convidadas por Claudio para o SAT, e com Joan Chodorow e Tina Stromsted, em seus próprios programas.

Sigo trabalhando em meu processo pessoal, me formando e recebendo supervisão com Janet Adler regularmente desde o ano 2000. Participo de um grupo reduzido de profissionais de países europeus (Alemanha, Suíça, Áustria, Finlândia e Espanha), que nos reunimos periodicamente para mover-nos, intercambiar e supervisar.

Cada vez mais me apaixona este trabalho, tanto como prática e veículo pessoal de crescimento desde meu corpo, movimento e expressão como através da condução de grupos, acompanhamento de processos e transmissão didática de seus elementos.

Aplico e investigo com Movimento Autêntico em minha prática privada individual e com grupos, no Programa SAT e no Estúdio Corazza para el Actor, com objetivos criativos e artísticos.

Quero terminar este artigo com um texto escrito por uma participante de um grupo regular com o qual trabalho há vários anos. Este texto foi escrito em uma sessão de movimento na semana do atentado 11-M em Madrid (2004).


"MOVENDO-ME EM OUTROS. 

Meu coração está chorando em outros olhos

e ouço em outros lábios meus lamentos,

gritando está meu furor outra garganta

e tremo em outro corpo e estremeço.


Não se movem em mim,

eu não me movo.


No espaço que abriram em meu peito,

as bombas que em outros nos feriram

pequeno e assustado

ainda persiste o amor.


Urge-me protegê-lo,

que não seja vencido pelo ódio,

se o entrego à terra,

ela saberá guardá-lo.


Abraçada assim pela terra e pelo céu,

com a face rendida,

sem saber-me eu ou eles,

vislumbro a unidade de assassinos e vítimas,

e a dor é tristeza, vergonha e desconsolo.


Aflita contemplo esta roda infinita

de causas e efeitos,

de ignorância, de apegos, de repulsas e ódios,

que a todos inclui ...

Sou oração assim

e é a oração deles.


Humanidade ferida, humanidade perdida

assustada e furiosa

ansiosa e reprimida.


Não sabe o que busca

mas gira e gira ...


Quando algo lhe dói

ataca os que vê.


Mas é teu coração,

fincado ainda na ferida

que o temor lhe causou,

quem mata tua esperança

comprimindo a vida.


O de fora está dentro

E não quer vê-lo.

Corre a nenhum lugar,

racionalizando a fuga.


Obriga-te a parar,

olha com valentia,

talvez esse olhar

acenderá em tua vida

a chama da esperança,

humanidade divina.”


Março de 2004.
Paloma de la Peña.

Este artigo é protegido sob uma licença Creative Commons: Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada (CC BY-NC-ND 3.0). Você tem permissão para compartilhar sujeita às seguintes condiçõesAqui.



REFERÊNCIAS E CITAÇÕES:

(1)  Mary Starks Whitehouse, “Creative Expression in Physical Movement is Language without Words”, provavelmente 1956, Authentic Movement, Vol. I, editado por Patrizia Pallaro, 1999, Jessica Kingsley Publishers, p.37
(2)  Mary Starks Whitehouse, “The Tao of the Body”, 1958, idem, p.44 e 46
(3)  idem, p.43
(4)  Janet Adler, “Who is the Witness?”, 1987, idem, p.156
(5)  Joan Chororow, “Dance Therapy and Depth Psychology”, 1991, Routledge, p.28
(6)  Janet Adler, “Body and Soul”, 1991, idem, p.182
(7)  Janet Adler, “Who is the Witness?”, idem, p.154
(8)  idem, p.158
(9)  idem, p.154
(10)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.183
(11)  idem, p.184
(12)  idem, p.164
(13)  Joan Chodorow, “Dance Therapy and the Transcendent Function”, 1977, idem, p.244 e 238
(14)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.182
(15)  Tina Stromsted and Neala Haze, “The Road In: Elements of the Study and Practice of Authentic Movement”, Authentic Movement Vol. II, editado por Patrizia Pallaro, 2007, Jessica Kingsley Publishers, p.57
(16)  idem, p.57
(17)  Nancy R. Zenoff, “An Interview with Joan Chodorow”, 1986, Authentic Movement Vol. I, editado por Patrizia Pallaro, 1999, Jessica Kingsley Publishers, p.222
(18)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.163
(19)  Mary Starks Whitehouse, “Reflexions on a Metamorphosis”, 1969-70, idem, p.59-60
(20)  Mary Starks Whitehouse, “Creative Expression in Physical Movement is Language without Words”, provavelmente 1956, idem, p.35
(21)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, 1963, idem, p.52
(22)  Mary Starks Whitehouse, “The Tao of the Body”, idem, p.42
(23)  idem, p.45
(24)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, idem, p.81
(25)  Gilda Frantz, “An Approach to the Center: An Interview with Mary Whitehouse”, 1972, idem, p.22
(26)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, idem, p.57
(27)  idem, p.79
(28)  Janet Adler, “Integrity of Body and Psyche: Some Notes on Work in Process”, 1972, idem, p.122-124
(29)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.187
(30)  Joan Chodorow, “Dance Therapy and Depth Psychology”, p.3, 26, 115
(31)  idem, p.6 e 104
(32)  idem, p.250
(33)  Tina Stromsted and Neala Haze, “The Road In: Elements of the Study and Practice of Authentic Movement”, p.63 e 67
(34)  Janet Adler, “Offering from the Conscious Body”, 2002, Inner Traditions, p.239

(1)  Nota da autora: Ainda não foi publicado nenhum livro sobre Movimento Autêntico em espanhol ou português até a presente data. Optei por traduzir e incluir citações de modo a tornar mais acessível este material.

Tradução para o português – Luiza Frade

Revisão da tradução – Betina Waissman
Uma pessoa fecha os olhos dirigindo a atenção ao seu interior, espera, escuta e se move, seguindo seus impulsos, na presença de uma testemunha que está em quietude.

 

Assim se poderia definir de modo sintético, esta forma basicamente simples de movimento não dirigido que permite acessar conteúdos de diferentes níveis de complexidade. Também poderíamos falar de “associação livre” (Freud) ou “imaginação ativa” (Jung) a partir do corpo, deixando-se fluir no movimento e aumentando a presença desperta da consciência. Uma forma de trabalho que convida o inconsciente a manifestar-se e que investiga a relação entre entrega e vontade. A particularidade aqui é que nos deixamos guiar pelo corpo e seguimos seus movimentos. O corpo que se move e que pode ser movido. Dando corporalidade a tudo que vai ocorrendo na medida em que nossa atenção se intensifica na presença de quem olha, a testemunha. Também poderíamos dizer que Movimento Autêntico é um trabalho de relação com o vazio, de entrega ao desconhecido.


Mas como é voltar a atenção ao nosso interior?
Como é esperar e escutar nossos impulsos? E seguí-los?
De onde surge um impulso, um movimento? Aonde nos leva?
Com o quê nos encontramos? O quê nos ocorre? O quê se revela?

Por impulsos entendemos o que nasce de nossas sensações, pensamentos, imagens, associações, emoções/sentimentos, energia e movimentos físicos que podem aparecer ao voltarmos nossa atenção para nós mesmos. Por movimento entendemos tudo o que vibra, tudo o que pulsa, o que está ocorrendo dentro e fora de nós, incluindo a voz, o som, a quietude, as relações, o movimento interior, exterior, energético.

“ ... estamos vivos porque nos movemos e nos movemos porque estamos vivos. No sentido mais profundo, movimento é o fluxo de energia que pertence a tudo que é vivo.” Mary S. Whitehouse (1)

Uma ou mais pessoas se movem com os olhos fechados, sensibilizando-se, abrindo-se, escutando e seguindo seus impulsos e tudo o que está acontecendo. Deixando que o corpo se mova segundo esta informação que vai se desvelando. Aqui aparece um aspecto essencial deste trabalho: a relação entre entrega e vontade. Ao mover-nos, podemos dirigir o próprio movimento, levantar um braço intencionalmente, mover a cabeça com as mãos para liberar a sensação de pressão ou o excesso de pensamentos, golpear o ar para expressar raiva, gritar, etc. Mas também podemos experimentar momentos nos quais o movimento nos ocorre, sem a intervenção de nosso comando ou intenção. Nos damos conta de que nosso braço está se levantando, ou que avançamos no espaço sem termos nos proposto, ou que um som emerge de dentro ... Estamos “sendo movidos” mantendo uma presença consciente, diferente do controle, satisfatória e plena, fruto da união entre entrega e vontade. Experimentamos a confiança de entregarmo-nos a um movimento sem necessariamente saber porquê, para quê, nem como será no momento seguinte. Simplesmente deixando-nos levar e habitando-o em seu desdobramento.

A experiência pode ter sentido no mesmo momento em que está ocorrendo, pode vir acompanhada de palavras que surgem na mente, de compreensões/”insights” (visões interiores), revelações. Outras vezes o que emerge pode surgir de etapas pré-verbais ou de conteúdos difíceis de expressar em palavras, situação tão freqüente quando estamos no terreno do transpessoal e do mistério. Há movimentos que podem não ter nenhuma lógica aparente e tampouco ter uma associação clara para a pessoa que os faz (“movimentos idiossincráticos”). Às vezes, com o tempo, aparece algum sentido para a pessoa que os fez ou permanece simplesmente como uma expressão singular, muito pessoal de alguém que necessita mover-se dessa maneira.

Também há movimentos que, vividos aparentemente como uma necessidade exclusivamente corporal, como uma forma de expressar a energia através do corpo, posteriormente cobram sentido. Na vida cotidiana se completam, com o tempo e com a observação de si mesmo. É o caso de uma mulher que participava de um grupo que se reunia regularmente comigo a cada quinze dias. Em uma seção permaneceu por muito tempo repetindo uma seqüência de movimentos: em pé, com o corpo muito alerta, as pernas separadas, posiciona seus braços como se fossem uma grande flecha, indicando o espaço diante de seu corpo. Um braço completamente estirado, mão incluída, aponta firme. Com o outro braço faz o mesmo, mas mantendo-o mais próximo de seu tronco, com o cotovelo dobrado, um pouco por baixo do primeiro braço, apoiando e reforçando a posição de apontar como uma flecha. Ela se coloca firmemente nessa posição como quem toma uma decisão. Depois seu corpo segue a direção traçada com passos amplos, quase saltando até parar. Ao deter-se ri, como se houvesse chegado aonde queria. Ri com o prazer de quem desfruta e reconhece algo. Depois faz um giro, muda de direção, retoma a mesma posição corporal e continua com passos amplos a direção indicada por ela mesma. Assim permanece talvez por uns vinte minutos, explorando todas as direções, estalando numa gargalhada cada vez que alcança o ponto de “chegada”. Ao final compartilha que não sabia bem porquê o fazia mas que se entregava a esse movimento que surgia e que lhe dava satisfação.

No encontro seguinte, ela já estava na sala quando cheguei. Fiquei surpresa, já que costumava chegar atrasada ao grupo. Quando todos chegaram, nos contou com alegria que nos últimos quinze dias havia conseguido chegar pontualmente a todos os seus compromissos. Também havia conseguido realizar tudo o que havia se proposto a cada dia! Habitualmente se propunha longas listas de tarefas que não conseguia realizar totalmente. Foi uma experiência surpreendente e útil para ela mesma. Tempos depois, conseguiu realizar mudanças substanciais e importantes em sua vida, que durante anos vinha desejando concretizar e que definiam novas direções para sua vida.

Há uma satisfação intensa em “habitar” a experiência através do corpo. Uma alegria e uma sensação de liberdade por reconhecer no corpo o que se sente. Algo se preenche e se completa, como uma gestalt que se fecha. Isto resulta profundamente curativo.

“Há um termo técnico para sentir o próprio corpo movendo-se – se chama o sentido cenestésico – e é tão valioso como os cinco que nos informam sobre o mundo físico ao nosso redor. O sentido cenestésico é a sensação que acompanha e nos informa sobre o movimento corporal.”

“O sentido cenestésico pode ser despertado e desenvolvido ao se usar qualquer tipo de movimento, mas creio que só se torna consciente quando a conexão interna, subjetiva, é encontrada, a sensação de como é para o indivíduo, seja balançar-se, alongar, dobrar, girar, torcer-se ou o que seja. Podemos aprender movimentos de grande variedade e diversidade. Mas isto não necessariamente garante senti-los. É o dar-se conta específico e concreto do próprio ato de mover-se que resulta tão satisfatório.”  Mary Whitehouse (2)

Nas palavras das três pioneiras em Movimento Autêntico:

Mary Whitehouse:

“O núcleo da experiência do movimento é a sensação de mover-se e ser movido. Há muitas implicações em falar desta maneira. Idealmente, ambos estão presentes no mesmo instante e pode ser literalmente um instante. É um momento de pleno dar-se conta, o encontro do que estou fazendo e do que está me acontecendo. Não pode ser antecipado, explicado, buscado especificamente nem repetido exatamente.” (3)

Janet Adler:

“Para voltar ao centro, desde a fonte da energia pessoal ou transpessoal, ou desde uma experiência de regressão ou egressão, subjacente às diferenças, o fundamento básico permanece sendo o mesmo em Movimento Autêntico. Com uma capacidade crescente de concentração, de escuta do impulso interior, o que se move aprende a reconhecer o canal no qual a energia criativa ou autêntica flui. Assim, cada movimento, não importa quão pequeno seja, passa a ser percebido, situado e ordenado de modo impecável. Honrar este conhecimento contém o poder transformador deste trabalho. Tanto no trabalho pessoal como transpessoal o que se move aprende a permitir e aceitar a prematura experiência de caos, de formas irracionais em seu corpo ou imaginação, do não saber.” (4)

Joan Chodorow:

Fala da “diferença entre movimento que é dirigido pelo ego – eu estou me movendo – e movimento que vem do inconsciente – estou sendo movido.” (5)

Ao trabalhar com os olhos fechados, nosso olhar se dirige ao nosso interior e todos os nossos sentidos se intensificam.

Conhecemos isto no nosso cotidiano, por exemplo quando fechamos os olhos para escutar e saborear melhor a música. Nossa percepção de emoções, imagens e pensamentos se intensifica como em outras práticas de instrospecção, auto-observação ou meditação.

Voltando intencional e conscientemente o olhar para nós mesmos, se gera uma qualidade de atenção e concentração não habitual, não mecânica. Isto abre as portas a muitas percepções, intuições, compreensões e experiências, à manifestação do inconsciente. Há algo misterioso nos olhos, no encontro com o olhar. A cultura popular se refere aos olhos como “as janelas da alma”. Em nenhuma outra parte do corpo podemos ver exteriormente o órgão interno e seu funcionamento. Conhecemos de sobra a importância do encontro com os olhos dos pais em nosso crescimento e de outras pessoas queridas ou importantes ao longo de nossas vidas.

“Se um homem deseja estar seguro do caminho que pisa, deve fechar os olhos e caminhar na escuridão.”  São João da Cruz (6)

Este trabalho se desenvolve e fundamenta na relação que se estabelece entre a pessoa que se move com os olhos fechados e a testemunha, com os olhos abertos.

“Uma das primeiras experiências da vida é a de ser visto. Os pais são testemunhas do filho. O filho, crescendo através da infância e da vida adulta, se move através de inumeráveis experiências de ser visto e de ver-se a si mesmo ... ser visto precede inevitavelmente o ver-se a si mesmo ...”  Janet Adler (7)

Também em psicoterapia, um aspecto fundamental do processo é a relação que se desenvolve entre paciente e terapeuta.

“Na cultura Ocidental o desejo por uma testemunha é inerente a ser pessoa. Queremos, queremos profundamente, ser vistos como somos por outro ... Finalmente, queremos ser testemunhas, amar, a outro.”  Janet Adler (8)

Em Movimento Autêntico utiizamos a palavra Testemunha para diferenciar do Juiz que levamos dentro. A testemunha está em quietude e silêncio, com os olhos abertos, receptiva: uma parte de sua atenção concentrada na pessoa que se move e a outra no que está sucedendo a si mesma, no que está se movendo em si. À testemunha não cabe julgar, criticar, analisar, interpretar ou descartar material, senão estar presente a serviço da pessoa que está se movendo. A testemunha está observando seus próprios impulsos, associações, projeções; quando se percebe presente ou ausente, distraída, desconectada ou concentrada. Aprendendo disto enquanto sustenta a atenção em e para o que está se movendo. Aprendendo sobre o mistério que é o outro, a humanidade, sua própria humanidade, a compaixão.

A testemunha sustenta também o campo energético, o espaço para o trabalho. Quando se trabalha em grupo, a função da testemunha é sustentada por todos os seus integrantes e pela pessoa que coordena o grupo, testemunha do grupo, assim como acontece nos grupos de terapia.

“Do mesmo modo que ser visto por outro originalmente me possibilita ver-me como sou, em uma volta a mais da espiral, ver o outro como é – amá-lo – me possibilita ver-me como sou.”
“O desejo mais profundo se modifica de ser visto como sou por outro, para ver o outro como é, os outros como são, o universo de uma nova maneira. E o ciclo continua recriando-se, expandindo a consciência em cada volta. Cada vez mais, se trata de ver e amar.”  Janet Adler (9)

“Deve-se ver realmente no plano físico, e por cima e através deste ver (do que se vê) deve haver outro tipo de visão ... Não que algo diferente seja visto mas que se veja de modo diferente.”  Suzuki (10)

À medida em que a relação entre o que se move e a testemunha cresce, também se fortalece a Testemunha Interior: nossa qualidade de presença e consciência diferenciada do Juiz, capaz de identificar o emaranhado de projeções e conteúdos que emergem. Em todo trabalho pessoal, seja terapêutico, de crescimento, auto-observação, meditativo ou espiritual, também se busca desenvolver esta qualidade que pode tomar diferentes nomes: presença, consciência, observador interno, mestre interior, sabedoria, visão, claridade, essência, etc e que inclui também a intuição.

“Todo ser mental desenvolvido ... em certos momentos e para certos propósitos ... separa as duas partes da mente, a parte ativa, que é uma fábrica de pensamentos e a parte quieta e sábia que é ao mesmo tempo Testemunha e Vontade.”  Satprem (11)

Esta consciência desperta e receptiva, que não julga, critica, analisa ou interpreta, permite acompanhar e transitar de maneira plena o material inconsciente que emerge sem cair na inconsciência. Embora existam momentos nos quais podemos nos fundir com o material emergente, ser “inundados” pela energia psíquica, ser extravasados pela emoção. Aqui aparecem os riscos na utilização desta forma tão potente de trabalho. São aspectos a serem trabalhados para aumentar nossa capacidade de presença, sustentar uma maior quantidade de energia e uma maior qualidade de percepção em nossos corpos. Aumentar o acesso ao inconsciente de modo consciente, receber suas mensagens/conteúdos e integrá-los é diminuir nossa inconsciência.

A pessoa que se move, a testemunha e a testemunha interior são os três pilares nos quais se apóia o trabalho de Movimento Autêntico. O que interessa é encarnar, dar corpo e carne ao diálogo com o inconsciente. Desta maneira nossa consciência se expande através de uma experiência concreta, corporal, com a reparação, o auto-conhecimento e a transformação que isto propicia.

“Quando o corpo encontra a forma para expressar o que a princípio é material sem forma, a consciência pessoal evolui.”  Janet Adler (12)

Depois do movimento, pode-se utilizar recursos artísticos como desenhar, pintar, modelar, para facilitar a transição entre a linguagem corporal não verbal e a palavra. Com estes materiais artísticos podemos plasmar a experiência presente no corpo em algo que está fora do mesmo, estando ainda no âmbito da linguagem simbólica.

Embora se trate de uma prática e trabalho corporal, uma parte importante de sua aprendizagem e desenvolvimento é a possibilidade de completar e integrar a experiência por meio da palavra. Assim como costuma ocorrer com os sonhos, se não os escrevemos ou contamos a alguém, inclusive a nós mesmos, mesmo que seja só um pedacinho, facilmente os esquecemos. Retornam a sua fonte, a “noite”, a “escuridão ou sombra”; retornam ao inconsciente. Quando isto se dá, podemos manter alguma sensação (descarga, liberação ou angústia) mas perdemos a oportunidade de integrar o material emergente à consciência.

“... inclusive as experiências interiores mais potentes devem ser cuidadosamente fixadas na consciência, senão tenderão a desaparecer.”
“... a questão crucial para a consciência deve incluir o trazer material inconsciente à luz, integrando-o à personalidade total.”  Joan Chodorow (13)

A palavra escrita e falada, utilizando a metáfora poética é de grande ajuda para plasmar a experiência sem nos afastar de sua qualidade direta por meio da racionalização. Então também a palavra surge de modo menos racional e discursivo, mantendo-se mais próxima da experiência e do corpo.

Pratica-se um modo de trabalhar com a palavra que nos ajuda a identificar as projeções, diminuir nossas tendências automáticas de interpretar, analisar, criticar, julgar e dar por certo. Um modo de falar que dê espaço ao que escuta, que respeite sua experiência e também seus silêncios. Uma linguagem que mantenha a presença viva do vazio, permitindo a surpresa, a criação, a poesia; que ofereça estrutura ao simbólico para que o inconsciente siga se revelando e encarnando. Palavras que nem sempre são lineares nem necessariamente lógicas ou racionais mas que nos ajudam a manter-nos presentes, a palavra viva, a palavra carne. Palavras que possam incluir o inominável, o que não cabe em palavras, nomear o que a palavra não abrange.

Analogamente se reproduz o caminho do desenvolvimento infantil: da experiência eminentemente sensório-motora e perceptiva à linguagem. Da experiência de ser visto (a pessoa que se move), a ver o outro (aprendizagem e função da testemunha), ver-nos a nós mesmos (testemunha interior) e ao coletivo com o qual estamos nos relacionando.

Em Movimento Autêntico o espaço físico é fundamental. É necessário criar um espaço seguro e protegido.

“... um espaço seguro e íntimo onde a confiança e a claridade possam desenvolver-se.”  Janet Adler (14)

O espaço é o campo onde o trabalho ocorre. Que esteja o mais vazio possível (sem objetos) ajuda a concretar explicitamente, fisicamente, de modo real e palpável, o vazio. O espaço aberto, vazio e receptivo que vemos e criamos fora, ajuda a gerar o espaço interior que permite que o inconsciente se revele e se expresse.

Para isso é necessário abrir-se ao vazio. Criar o vazio, receber o vazio, entregar-se ao vazio. Pode-se dizer que o trabalho de Movimento Autêntico é também uma forma de trabalhar com o vazio, como um ato ou momento de criação. Reconhecer o vazio é reconhecer o mistério, algo mais além de nós mesmos, que nos transcende.

A confiança é essencial e se cria durante o processo: por meio da relação com a pessoa que o conduz, com os outros participantes, no caso de um grupo, consigo mesmo e sua própria experiência. A confiança vai se desenvolvendo na dinâmica entre espaço e limite, exterior e interior; espaço para o diálogo entre entrega e vontade.

“O espaço potencial entre bebê e mamãe, criança e família, entre indivíduo e sociedade ou o mundo, depende da experiência, que leva à confiança. Pode ser vista como sagrada para o indivíduo já que é aqui onde o indivíduo experimenta viver criativamente.”  Winnicott (15)

Movimento Autêntico proporciona um espaço explícito e seguro para explorar “tudo o que impede nosso crescimento e plenitude, mas também tudo o que pode servir para curar feridas, trazer equilíbrio, transformar relações internas e dirigir-nos em nossas singulares viagens de vida.”  Lewis (16)

À medida em que o trabalho se aprofunda e especialmente quando se trabalha em grupo, esta expansão pode nos levar mais além de nossos limites individuais e do ego, mais além de nossas histórias pessoais. Podemos ter acesso ao inconsciente coletivo e a outros níveis de experiência e energia transpessoal.

Ritualizar nos ajuda a criar este espaço que convida à sincronicidade. Esta revela os movimentos, conteúdos e ordens mais sutis do mistério. O ritual é também uma entrada à linguagem simbólica que, como sabemos, é a linguagem do inconsciente.

Para dialogar com o inconsciente precisamos nos familiarizar com o simbólico e sua expressão no corpo e no movimento. Tudo passa a ser importante, cada pequeno detalhe pode conter significado.

Em uma entrevista, Joan Chodorow fala de um tipo de percepção ou dar-se conta que ocorre quando estamos envolvidos num processo simbólico, seja falando ou movendo-nos:

“Para mim, tudo o que emerge do inconsciente costuma ter quatro aspectos: um aspecto é o que está ocorrendo aqui entre nós; outro aspecto é o que está ocorrendo na vida da pessoa nesse momento; o terceiro aspecto são as memórias mais antigas da infância semelhante a esse mesmo tipo de experiência; o quarto aspecto inclui imagens universais ou místicas.”  Joan Chodorow (17)

Ao ritualizar canalizamos nossa atenção de modo intencional, gerando uma maior concentração de energia no campo. Isto nos leva a uma qualidade de presença que altera nosso estado de consciência, uma intensificação de nossos sentidos que pode nos levar a viver de um modo muito potente, tanto o material da nossa história pessoal (passado ou presente) como o transpessoal. Daí que tantas vezes falamos da experiência como uma “viagem”, que transitamos através de diferentes níveis ou estados de consciência, de espaços e tempos, para diante/trás, acima/abaixo, o círculo/a espiral, o puro presente, atemporal. Uma “viagem” ao desconhecido, ao misterioso, ao sagrado.

“A psique humana demanda inevitavelmente experimentar a relação direta com o espírito, conhecer o sagrado.”  Janet Adler (18)

Movimento Autêntico, ou alguns de seus elementos, vêm sendo aplicados nos âmbitos da saúde e da psicoterapia, da meditação e prática espiritual, de processos criativos e artísticos e em trabalhos comunitários.

Gostaria de dar uma suscinta perspectiva histórica e de mencionar algumas contribuições das mulheres que assentaram os pilares deste trabalho:

Entre a década de 50 e 60 se origina um movimento no mundo da dança, mais visível nos Estados Unidos, embora também na Europa e na América do Sul, que vai deslocando o foco de interesse da experiência técnica e profissional para a humana. Cada vez mais pessoas se interessam pelo movimento e a dança sem um propósito profissional ou exclusivamente artístico. Por outro lado, muitos artistas também se interessam mais pelos aspectos humanos, expressivos e misteriosos da dança e não somente pela técnica formal. Isto aparece nos trabalhos de Isadora Duncan, Mary Wigman, Martha Graham, Trudi Schoop, Marian Chace, Susana Milderman, Maria Adela Palcos e outros. Nos Estados Unidos, algumas bailarinas começam a colaborar em clínicas psiquiátricas que estão investigando linguagens para o trabalho com internos, como alternativas à medicação, às descargas elétricas, às cirurgias. Assim nasce o que tomará a forma de Dança/Movimento Terapia, hoje em dia uma prática reconhecida e integrada no sistema de saúde norte americano. Com trajetórias parecidas surgem outrs formas de trabalho com o movimento e a expressão para o desenvolvimento pessoal como, por exemplo, o Sistema Río Abierto na Argentina.

Mary Starks Whitehouse, bailarina americana e pioneira na aplicação da dança/movimento para a terapia e o crescimento pessoal, é quem inicia a investigação nos anos 60, sobre o que primeiro chamará “movimento em profundidade”, por analogia a seu intenso processo analítico pessoal na linha de Carl Jung. Mais adiante passará a utilizar o nome de Movimento Autêntico. Sua investigação se centra principalmente na pessoa que se move. Mary fala de como seu interesse se transfere do âmbito técnico/artístico para o  “processo e humanidade” em um pequeno texto: “Reflexões sobre uma Metamorfose” (1969-70):

“Aí estava para mim a chave: o sentido e a condição de estar vivo ... Gradualmente, me dei conta de que movimento é uma das grandes leis da vida. É o meio primário de nosso viver, o fluxo de energia ocorrendo em nós todo o tempo, como um rio, adormecidos ou despertos, vinte e quatro horas por dia. Nosso movimento é nosso comportamento; há uma conexão direta entre como somos e como nos movemos.”  (19)

Sua visão sobre o corpo, o movimento e a personalidade, nascida de sua prática, é de uma claridade contundente:

“O corpo não mente. Somos como nossos movimentos, pois o movimento somos nós vivendo: vital e experimental ou tenso e restringido, espontâneo e fluido ou controlado e inibido.”  (20)
“O corpo é o aspecto físico da personalidade e o movimento é a personalidade feita visível. As distorções, tensões e restrições são as distorções, tensões e restrições da personalidade. São, em qualquer momento dado, a condição da psique. E a descoberta de sua existência de fato, sua existência física, é o início do processo do que se pode chamar reconhecimento psicossomático, pois somos entidades psicossomáticas.”  (21)


“Dois aspectos sobre o movimento físico são impactantes. Um é que o movimento é não verbal e no entanto comunica – ou seja, diz algo ... O que me leva ao segundo aspecto: o corpo não mente, quase diria, não pode mentir. O ser humano, tal como realmente existe em qualquer momento, não pode ser ocultado, por palavras, por roupas, menos ainda por desejos. Não importa o que faça ou diga, tem seu próprio modo de fazer ou dizer e é este modo que revela como é. A condição física é, de certa forma, também a psicológica. Não sabemos de que modo a psique é o corpo e o corpo é a psique mas sabemos sim que um não existe sem o outro. E eu diria que assim como o corpo muda no curso do trabalho com a psique, também a psique muda no curso do trabalho com o corpo. Seria bom recordar que ambos não são entidades separadas mas misteriosamente uma totalidade.”  (22)


“Quanto menos se experimenta o corpo, mais se converte em uma aparência; quanto menos realidade tem, mais necessita ser “desvestido” ou vestido; quanto menos é o corpo próprio e conhecido, mais se afasta do que tenha que ver com o ser. Trabalhar com movimento é uma iniciação ao mundo do corpo como é na realidade, o que pode fazer facilmente, com dificuldade ou de nenhuma maneira. Mas é também, ou pode ser, um descobrimento sério do que somos – pois somos como nosso movimento.”  (23)

 Mary define assim “um movimento autêntico”:

“Quando o movimento é simples e inevitável, para não ser modificado, por mais limitado ou parcial que seja, se converte no que chamo “autêntico” – que poderia ser reconhecido como genuíno, pertencendo a essa pessoa. Autêntico era a única palavra que me ocorreu que significava verdade – verdade de um tipo não aprendida, mas aí para ser vista por instantes.”  (24)


“Quando, em certas pessoas, a imagem está verdadeiramente conectada, o movimento é autêntico. Não se infla o movimento somente porque sim. Há uma habilidade de sustentar a tensão interna até que a imagem seguinte nos mova. Não “passeiam” dançando simplesmente.”  (25)

A experiência com o Movimento Autêntico pode ser vista como:

“ ... momentos de revelação num processo de desenvolvimento do dar-se conta. São o discurso da personalidade total apresentando-se para ser ouvida – o processo interno em forma física, tendo sentido que pode ser apreendido e valor que pode ser recebido pela pessoa que se move. São especialmente irresistíveis porque o corpo é uma realidade imediata. Não se pode escapar da experiência física direta quando é direta e quando é física ... Aí está alguém, exatamente onde está o movimento, com a mesma falta de liberdade, com o mesmo conflito, com os mesmos temores. E a assimilação desta descoberta fortalece e libera a consciência para o crescimento, que, acredito, é o sentido básico da personalidade.”  (26)

A dinâmica entre as polaridades é inerente a este trabalho. A relação entre os opostos está presente nos conteúdos e na natureza do material que emerge, assim como em sua estrutura e desenvolvimento: alguém que se move e outro que é testemunha; consciência e inconsciente, entrega e vontade, mover e ser movido, movimento e quietude, silêncio e som/palavra, interior e exterior, indivíduo e coletivo, pessoal e transpessoal.

Como em outros trabalhos de crescimento pessoal, trata-se de ampliar e integrar esta dinâmica para viver nossa totalidade.

“A vida nunca é isso ou aquilo, mas sempre o paradoxo entre ambos ... Aplicado ao físico, é surpreendente que nenhuma ação possa ser realizada sem a oposição de dois grupos musculares – um que se contrai e outro que se estende. Esta já é a presença da polaridade inerente no padrão do movimento.”  (27)

Janet Adler é a segunda mulher que contribui para que Movimento Autêntico tenha a forma que tem hoje. Janet, uma geração mais jovem que Mary, estuda com ela depois de formar-se em Dança Movimento Terapia. A partir desta experiência, funda o Instituto Mary Whitehouse, enriquecendo e aprofundando o trabalho com sua contribuição pessoal e investigando a importância e função da testemunha. Em seu trabalho, Mary era sempre a única testemunha, tanto em sessões individuais como grupais. Janet investiga a relação com a Testemunha como uma função intrínseca do que chamará a Forma de Movimento Autêntico. Colocará sua atenção também no fenômeno coletivo ou “corpo coletivo”: o aspecto transpessoal e a relação com o espaço vazio.

Janet fala de cinco etapas de trabalho em Movimento Autêntico que podem ser compreendidas no marco do trabalho psicológico. Ela deixa claro que fala de processo e não de cura e que muitas das pessoas que vêm trabalhar com ela são alunos de dança/movimento terapia, de psicologia e de artes. Podemos resumir assim estas etapas:

1. Uma primeira etapa onde a pessoa busca reconhecer e permitir seu próprio movimento autêntico que, como descreveu Mary Whitehouse (1970), é “movimento que é natural para uma pessoa particular”, não
aprendido ou intelectualizado, e que não busca um efeito sobre outros. “Um movimento autêntico é a expressão imediata de como a pessoa se sente em qualquer momento específico.” À medida que isto começa a ocorrer, cada vez de modo mais fácil, com a capacidade de reconhecer quando se está movendo desde aí ou não, a pessoa está se “permitindo ter acesso ao seu próprio inconsciente e, à medida em que seu inconsciente fala através de seu movimento, pode tornar-se consciente do que está fazendo ... Em psicoterapia o início é semelhante. O paciente procura separar e desenredar o que são sentimentos e sensações autênticas das “adotadas”. Está também buscando a experiência de falar livremente a partir do coração, sem que sua mente esteja julgando e criticando tudo o que diz.”

2. A segunda etapa é marcada pela expressão aberta do movimento autêntico, marcado pela liberdade e o prazer de mover-se. Com o tempo e a confiança, há cada vez mais entrega e descobrimentos. Em psicoterapia é o momento em que o paciente consegue falar livremente de seus verdadeiros sentimentos. Aqui também a base desta liberdade se desenvolve a partir da confiança em si mesmo e no terapeuta.

3. A terceira etapa é a percepção e o reconhecimento de um repertório próprio, padrões repetitivos de movimento. Como na psicoterapia, aprendemos a reconhecer nossos comportamentos repetitivos, padrões defensivos e assuntos recorrentes.

4. A quarta etapa é quando se enfocam, investigam e aprofundam temas específicos; quando se percorre e atravessa o que necessita ser experimentado. “Quanto mais profunda e autêntica é a quarta etapa, mais poderosa e clara é a resolução.”

5. A quinta etapa é a experiência de resolução, “a saída, emergindo com energia liberada para o crescimento contínuo”.  (28)

Acompanhando seu próprio processo pessoal, Janet começa a investigar no âmbito da experiência mística e espiritual. Cada vez mais se interessa pelo que chama experiência direta e por fenômenos energéticos. Realiza um doutorado em estudos místicos e investiga diferentes processos de despertar energético e da consciência. Chama seu trabalho Disciplina de Movimento Autêntico, separando-o mais da psicoterapia e aproximando-o mais da meditação e de outras tradições e práticas de crescimento espiritual. Trabalha também no terreno do trauma. Em seu artigo Corpo e Alma (1991), traça paralelos e assinala temas habituais e comuns a Movimento Autêntico e práticas místicas/espirituais de diversas tradições.

“Tudo parece estar ocorrendo acima, mais além, mas o quê está ocorrendo aqui? ... Necessitamos uma verdade que envolva também o corpo e a terra ... Quanto mais descemos, maior é a consciência que necessitamos, mais forte a luz.”  Satprem (29)

Joan Chodorow, também bailarina e aluna de Mary, é quem desenvolve a vertente mais clínica e psicoterapêutica do trabalho. Joan trabalha especialmente na relação individual terapeuta-paciente e em grupos de formação para terapeutas de dança/movimento. Joan completa um doutorado e é analista membro do Instituto Carl G. Jung de São Francisco. Apresenta uma visão da psique que apóia a compreensão dos movimentos expressivos. Fundamenta-se principalmente nas teorias de Carl G. Jung e nas contribuições mais atuais de Louis H. Stewart, quem propõe uma síntese com contribuições próprias sobre a estrutura e a dinâmica da psique, o desenvolvimento psicológico/simbólico, as funções dos afetos/emoções primordiais e o desenvolvimento infantil (Afeto e arquétipo: uma contribuição para a compreensão da teoria da estrutura da psique – 1985). Stewart nomeia alguns temas essenciais em processos de expressão e transformação que são básicos no trabalho com Movimento Autêntico, tais como: ritmo, ritual, razão e relação. Tanto Jung como Stewart destacam a importância e a função do jogo e da imaginação para o ser humano. Em seu livro “Dança Terapia e Psicologia em Profundidade: a imaginação em movimento” (1991), Joan apresenta sua experiência e visão, descrevendo diferentes tipos e temas de movimento vinculados a etapas do desenvolvimento infantil, conteúdos do inconsciente (pessoal, cultural, primordial) e o eixo ego-self.

“ ... a interconexão misteriosa entre corpo e psique ... Uma emoção, por definição, é simultaneamente somática e psíquica. O aspecto somático é feito de inervações corporais e ação física expressiva. O aspecto psíquico é feito de imagens e idéias. Em psicopatologia, ambos aspectos tendem a separar-se.Por contraste, uma emoção vivida como natural envolve uma relação dialética – a união do corpo e da psique ... Os padrões expressivos são ao mesmo tempo pessoais e universais. Sejam as emoções nomeadas ou não, motivam e configuram nosso modo de nos mover.”

“Se colocamos nossa atenção conscientemente no movimento corporal mais simples, experimentamos a interrelação e a interdependência dos opostos.”


“ ... desenvolver a capacidade de sustentar a tensão dos opostos – abrir-se plenamente ao inconsciente enquanto se mantém uma firme orientação consciente.”  (30)

Ela destaca:

“ ... a função curativa da imaginação e da relação dialética e contínua entre curiosidade e imaginação ... Toda forma de imaginação ativa inicia este diálogo essencial entre curiosidade e imaginação. Tal diálogo é a trama da consciência e do inconsciente; é a fonte última da criatividade. O processo criativo intrínseco à infância e seu desenvolvimento é o mesmo processo que promove a individuação de um adulto em psicoterapia.”


“O jogo simbólico ativa a função produtora de imagens da psique (a imaginação) que nos põe em contato conosco mesmos.”  (31)

Fala do diálogo com o mistério/o sagrado e as polaridades:

“Imaginação ativa foi chamada de ‘um diálogo com os deuses’ (Dallett e Lucas, 1977). A mesma definição se pode aplicar à experiência de dança/movimento. Desde o começo da história humana, a dança foi uma linguagem sagrada, um modo de perceber e dar-se conta de nossa conexão com o cosmos.”


“Devemos aprender a nos relacionar com posições opostas, sejam no interior do indivíduo, entre duas ou mais pessoas, ou entre nações. Para desenvolver mais amplamente o potencial do diálogo sagrado que serve para unir os opostos ...”  (32)

Sobre o compromisso de levar o crescimento pessoal à vida:

“Insight deve ser convertido em uma obrigação ética – levá-lo à vida.”


“ ... – o que era invisível pode fazer-se visível. ... buscamos nossa completude através da experiência psíquica e somática direta. Assim, a sabedoria do corpo cria a possibilidade de uma conexão mais rica e profunda com a vida diária. Como escreve Jung: ... não se pode ensinar sabedoria com palavras. Só é possível por contato pessoal e por experiência imediata.”  (33)

Janet Adler reflete o mesmo compromisso no poema-oração que fecha seu livro:

“Que a qualidade de consciência     emergindo coletivamente     no mundo     supere a quantidade de inconsciência     que sofre nosso planeta.Que todo o sofrimento se transforme em compaixão.Que estejamos preparados, que sejamos capazes.”  (34)



Para completar, contarei como cheguei ao trabalho de Movimento Autêntico.

Meu caminho pessoal e profissional ocorreu principalmente através da expressão e da criação. Dediquei-me profissionalmente ao teatro como atriz durante mais de vinte anos e paralelamente a trabalhos de crescimento pessoal através do movimento. Simultaneamente realizei meu processo terapêutico, começando pela Psicoterapia Analítica, depois passando ao caminho corporal: Bioenergética e Terapia Reichiana. Formei-me no Sistema Río Abierto (Coringa – Brasil; Río Abierto – Argentina), em Terapia Reichiana (CIO – Brasil e ES.TE.R – Espanha), e no Programa SAT dirigido por Cláudio Naranjo. Desde 1992 trabalho como colaboradora neste Programa, no Brasil, Espanha, México, Argentina, Itália e outros países. Desde 1995 sou professora no Estudio Corazza para el Actor (Madri – Espanha) e de 1998 a 2007 participei da equipe de Espacio Movimiento – Rio Abierto España.

Claudio sempre teve um interesse especial pelo expressivo e uma fé profunda no espontâneo, na sabedoria inerente ao ser humano. Conheceu Mary Whitehouse em Esalen, e também o Subud, uma prática de entrega ao movimento espontâneo de olhos fechados, com muitas semelhanças ao Movimento Autêntico. Em um Congresso de Psicologia Transpessoal na Itália (1995) recupera a pista do trabalho de Mary Whitehouse em uma apresentação feita por Marcia Plevin, dança-terapeuta americana radicada em Roma. Convida-a para colaborar em um módulo do Programa SAT em Burgos, Espanha (1996) e para levar em paralelo um grupo especial para pessoas que já haviam completado todos os módulos do SAT. Neste grupo, composto em sua maioria por terapeutas, ela introduz movimento Autêntico e a pedido de Claudio, a traduzo e ajudo. Graças à intuição, generosidade e estímulo de Claudio, começo a aprofundar nesta nova direção de trabalho psico-corporal.

Sigo formando-me com Marcia por cinco anos mais, com Neala Haze, Zoe Avstreih, convidadas por Claudio para o SAT, e com Joan Chodorow e Tina Stromsted, em seus próprios programas.

Sigo trabalhando em meu processo pessoal, me formando e recebendo supervisão com Janet Adler regularmente desde o ano 2000. Participo de um grupo reduzido de profissionais de países europeus (Alemanha, Suíça, Áustria, Finlândia e Espanha), que nos reunimos periodicamente para mover-nos, intercambiar e supervisar.

Cada vez mais me apaixona este trabalho, tanto como prática e veículo pessoal de crescimento desde meu corpo, movimento e expressão como através da condução de grupos, acompanhamento de processos e transmissão didática de seus elementos.

Aplico e investigo com Movimento Autêntico em minha prática privada individual e com grupos, no Programa SAT e no Estúdio Corazza para el Actor, com objetivos criativos e artísticos.

Quero terminar este artigo com um texto escrito por uma participante de um grupo regular com o qual trabalho há vários anos. Este texto foi escrito em uma sessão de movimento na semana do atentado 11-M em Madrid (2004).


"MOVENDO-ME EM OUTROS. 

Meu coração está chorando em outros olhos

e ouço em outros lábios meus lamentos,

gritando está meu furor outra garganta

e tremo em outro corpo e estremeço.


Não se movem em mim,

eu não me movo.


No espaço que abriram em meu peito,

as bombas que em outros nos feriram

pequeno e assustado

ainda persiste o amor.


Urge-me protegê-lo,

que não seja vencido pelo ódio,

se o entrego à terra,

ela saberá guardá-lo.


Abraçada assim pela terra e pelo céu,

com a face rendida,

sem saber-me eu ou eles,

vislumbro a unidade de assassinos e vítimas,

e a dor é tristeza, vergonha e desconsolo.


Aflita contemplo esta roda infinita

de causas e efeitos,

de ignorância, de apegos, de repulsas e ódios,

que a todos inclui ...

Sou oração assim

e é a oração deles.


Humanidade ferida, humanidade perdida

assustada e furiosa

ansiosa e reprimida.


Não sabe o que busca

mas gira e gira ...


Quando algo lhe dói

ataca os que vê.


Mas é teu coração,

fincado ainda na ferida

que o temor lhe causou,

quem mata tua esperança

comprimindo a vida.


O de fora está dentro

E não quer vê-lo.

Corre a nenhum lugar,

racionalizando a fuga.


Obriga-te a parar,

olha com valentia,

talvez esse olhar

acenderá em tua vida

a chama da esperança,

humanidade divina.”


Março de 2004.
Paloma de la Peña.

Este artigo é protegido sob uma licença Creative Commons: Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada (CC BY-NC-ND 3.0). Você tem permissão para compartilhar sujeita às seguintes condiçõesAqui.



REFERÊNCIAS E CITAÇÕES:

(1)  Mary Starks Whitehouse, “Creative Expression in Physical Movement is Language without Words”, provavelmente 1956, Authentic Movement, Vol. I, editado por Patrizia Pallaro, 1999, Jessica Kingsley Publishers, p.37
(2)  Mary Starks Whitehouse, “The Tao of the Body”, 1958, idem, p.44 e 46
(3)  idem, p.43
(4)  Janet Adler, “Who is the Witness?”, 1987, idem, p.156
(5)  Joan Chororow, “Dance Therapy and Depth Psychology”, 1991, Routledge, p.28
(6)  Janet Adler, “Body and Soul”, 1991, idem, p.182
(7)  Janet Adler, “Who is the Witness?”, idem, p.154
(8)  idem, p.158
(9)  idem, p.154
(10)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.183
(11)  idem, p.184
(12)  idem, p.164
(13)  Joan Chodorow, “Dance Therapy and the Transcendent Function”, 1977, idem, p.244 e 238
(14)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.182
(15)  Tina Stromsted and Neala Haze, “The Road In: Elements of the Study and Practice of Authentic Movement”, Authentic Movement Vol. II, editado por Patrizia Pallaro, 2007, Jessica Kingsley Publishers, p.57
(16)  idem, p.57
(17)  Nancy R. Zenoff, “An Interview with Joan Chodorow”, 1986, Authentic Movement Vol. I, editado por Patrizia Pallaro, 1999, Jessica Kingsley Publishers, p.222
(18)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.163
(19)  Mary Starks Whitehouse, “Reflexions on a Metamorphosis”, 1969-70, idem, p.59-60
(20)  Mary Starks Whitehouse, “Creative Expression in Physical Movement is Language without Words”, provavelmente 1956, idem, p.35
(21)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, 1963, idem, p.52
(22)  Mary Starks Whitehouse, “The Tao of the Body”, idem, p.42
(23)  idem, p.45
(24)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, idem, p.81
(25)  Gilda Frantz, “An Approach to the Center: An Interview with Mary Whitehouse”, 1972, idem, p.22
(26)  Mary Starks Whitehouse, “Physical Movement and Personality”, idem, p.57
(27)  idem, p.79
(28)  Janet Adler, “Integrity of Body and Psyche: Some Notes on Work in Process”, 1972, idem, p.122-124
(29)  Janet Adler, “Body and Soul”, idem, p.187
(30)  Joan Chodorow, “Dance Therapy and Depth Psychology”, p.3, 26, 115
(31)  idem, p.6 e 104
(32)  idem, p.250
(33)  Tina Stromsted and Neala Haze, “The Road In: Elements of the Study and Practice of Authentic Movement”, p.63 e 67
(34)  Janet Adler, “Offering from the Conscious Body”, 2002, Inner Traditions, p.239

(1)  Nota da autora: Ainda não foi publicado nenhum livro sobre Movimento Autêntico em espanhol ou português até a presente data. Optei por traduzir e incluir citações de modo a tornar mais acessível este material.

Tradução para o português – Luiza Frade